Durante muito tempo, as empresas trataram as fraudes como acontecimentos imprevisíveis, apresenta Gilmar Stelo, advogado e fundador do Stelo Advogados. Quando um desvio era descoberto, a prioridade passava a ser identificar os responsáveis, calcular os prejuízos e reparar os danos causados. Com o passar dos anos, entretanto, essa lógica começou a mudar. Há uma transformação importante na forma como organizações administram seus riscos: a prevenção deixou de ser uma medida complementar e passou a ocupar posição estratégica na gestão empresarial. A pergunta que ganha espaço entre gestores e especialistas já não é apenas como reagir a uma fraude, mas se é possível perceber seus sinais antes mesmo que ela aconteça.
Essa mudança foi impulsionada por um cenário em que operações corporativas se tornaram mais complexas, a circulação de informações passou a ocorrer em tempo real e as fraudes evoluíram na mesma velocidade que a tecnologia. Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial e os sistemas digitais ampliaram a capacidade de monitoramento das empresas, também criaram novas oportunidades para desvios de conduta e ataques cada vez mais sofisticados. Nesse ambiente, compreender como uma fraude nasce tornou-se tão importante quanto saber investigá-la.
A fraude realmente surge de forma inesperada?
Quando uma fraude vem à tona, costuma causar a impressão de que tudo aconteceu de maneira repentina. Na prática, porém, especialistas em governança e gestão de riscos observam que esse tipo de situação normalmente é construído de forma gradual. Antes que qualquer irregularidade seja identificada, pequenas falhas de controle, ausência de revisões periódicas, excesso de confiança em determinados processos e vulnerabilidades operacionais costumam permanecer invisíveis durante meses ou até anos. É justamente nesse período silencioso que o risco cresce.
Essa percepção alterou profundamente a forma como empresas passaram a enxergar a prevenção. Em vez de concentrar esforços apenas na investigação do ato ilícito, organizações mais maduras passaram a analisar as condições que permitiram que ele acontecesse. Ao analisar essa evolução, o Doutor Gilmar Stelo, referência em atuação estratégica no Direito, observa que uma fraude raramente nasce da noite para o dia. Na maioria das vezes, ela encontra espaço em ambientes onde controles deixam de evoluir na mesma velocidade que os próprios negócios.
Os primeiros sinais aparecem nas pessoas ou nos processos?
É comum imaginar que uma fraude pode ser identificada apenas por meio de auditorias financeiras ou análises contábeis. Embora esses mecanismos sejam importantes, especialistas apontam que muitos dos primeiros sinais aparecem muito antes, no funcionamento cotidiano da organização. Processos sem padronização, concentração excessiva de responsabilidades, falhas de comunicação entre departamentos, ausência de segregação de funções e procedimentos pouco revisados costumam indicar fragilidades que podem ser exploradas futuramente.
Ao mesmo tempo, o comportamento humano continua ocupando posição central nessa discussão. Pressões por resultados, metas mal estruturadas, ambientes com pouca transparência e culturas organizacionais que relativizam pequenas exceções podem favorecer decisões inadequadas sem que isso seja percebido imediatamente. Sob essa perspectiva, conforme frisa o Doutor Gilmar Stelo, especialista na área jurídica, contencioso e administrativo, compreender como pessoas e processos interagem tornou-se uma das formas mais eficientes de reduzir vulnerabilidades antes que elas se convertam em prejuízos concretos.

A inteligência artificial conseguirá prever uma fraude?
Nos últimos anos, empresas passaram a investir em plataformas capazes de cruzar milhares de informações simultaneamente, identificar padrões incomuns e emitir alertas automáticos sempre que determinada operação foge do comportamento esperado. Ferramentas baseadas em inteligência artificial conseguem detectar movimentações atípicas, inconsistências documentais e alterações incomuns em processos internos com uma velocidade impossível para análises exclusivamente humanas. Essa evolução representa um avanço significativo na gestão de riscos.
Ainda assim, a tecnologia possui limites claros. Algoritmos conseguem identificar comportamentos fora do padrão, mas não substituem a interpretação humana nem resolvem problemas relacionados à cultura organizacional. Um sistema pode apontar uma inconsistência, porém somente pessoas preparadas conseguem avaliar seu contexto e decidir a melhor forma de agir. Na avaliação do Doutor Gilmar Stelo, empresas realmente preparadas são aquelas que utilizam tecnologia como ferramenta de apoio, sem abrir mão de governança, compliance e processos capazes de transformar informações em decisões estratégicas.
O futuro da prevenção dependerá mais da cultura do que da fiscalização?
Durante muitos anos, programas de integridade foram estruturados principalmente para atender exigências regulatórias e responder a auditorias. Hoje, essa visão vem sendo substituída por uma abordagem mais ampla, na qual prevenção significa construir ambientes organizacionais capazes de reduzir oportunidades para irregularidades antes mesmo que elas apareçam. Isso envolve treinamento contínuo, revisão permanente de processos, fortalecimento dos controles internos e desenvolvimento de uma cultura baseada em transparência e responsabilidade.
Essa mudança demonstra que prevenir fraudes deixou de ser uma tarefa restrita ao setor jurídico ou à auditoria interna. Ela passou a envolver lideranças, colaboradores, tecnologia, governança e planejamento estratégico. O Doutor Gilmar Stelo elucida que as organizações que conseguem integrar esses elementos desenvolvem maior capacidade de antecipar riscos, responder rapidamente às mudanças do mercado e fortalecer relações de confiança com clientes, investidores e parceiros comerciais.
O maior avanço não será descobrir fraudes, mas impedir que elas aconteçam
A evolução da gestão empresarial demonstra que o futuro da integridade não estará apenas na capacidade de investigar irregularidades com mais eficiência. O verdadeiro diferencial competitivo será desenvolver estruturas capazes de identificar vulnerabilidades antes que elas produzam consequências financeiras, jurídicas e reputacionais. Quanto mais complexas se tornam as organizações, maior passa a ser a importância de compreender que riscos não surgem de forma isolada, mas como resultado da interação entre pessoas, processos e tecnologia.
Por fim, as empresas que investem em prevenção, fortalecem sua cultura organizacional e integram governança, gestão de riscos e planejamento jurídico estarão mais preparadas para enfrentar um ambiente de negócios cada vez mais desafiador, transformando a integridade em um dos principais pilares para o crescimento sustentável.

